ARTIGOS

“Violência, mídia e religião”

Por: Luiz Carlos Ramos
Não por força, nem por violência,
mas pelo meu Espírito, diz o SENHOR dos Exércitos.
(Profeta Zacarias 4.6)
A tensão dialética entre violência e não-violência na experiência fé/religião é antiga. O verso em epígrafe é uma expressão flagrante disso: ao mesmo tempo em que apela para o Espírito, como contraponto da força e da violência, a frase é assinada pelo Senhor dos Exércitos. A contradição é flagrante, pois não há nada mais violento do que o exército.
Religião/fé e violência
Cruz e espada demonstram serem boas e históricas companheiras. Foi assim durante as cruzadas, foi assim durante a inquisição, foi assim durante a colonização dos “novos” continentes. Mas esse não parece ser mérito exclusivo do cristianismo. O mesmo senti­mento, com variações culturais, o mesmo espí­rito bélico, parece seduzir indivíduos de todos os credos em todas as épocas. Todos se “alistam” nos exércitos sagrados para “combater o bom combate”, para travar a “guerra santa”, para “batalhar contra os inimi­gos de deus”.
Em nome de Deus, da sua fé e da sua religião, os Bôeres instituíram o Apartheid na África do Sul: um sistema social que divide a sociedade em cidadãos de primeira e de segunda linhas. Em nome da mesma fé, ingleses espoliaram a Índia e tantas outras colô­nias. Também amparados pelas mesmas cruzes e coroas, portugueses, espanhóis e ingle­ses promoveram o genocídio de quase 100 milhões pessoas, habitantes originais do con­tinente americano.
Os mesmos colonizadores, em nome da mesma fé, perpetuaram durante séculos a abo­minável prática da escravidão de homens e mulheres negras, arrancadas à força da sua terra africana. Para não falar da Inquisição, da tortura e da pena de morte, devidamente sacramentada pelos homens da fé.
Religião/fé e não-violência
Por outro lado, paralela a essa história, desde os tempos bíblicos, a pregação e a prática da não-violência, ainda que timidamente, se fazem notar. Profetas e poetas hebreus, como vozes solitárias e errantes, defendiam o direito e a justiça apelando para o bom-senso pacífico, contra o beligerante senso-comum. Como se sabe, obtiveram pouco êxito.
Haverá maior exemplo de resistência pacífica e não-violenta do que o do próprio Jesus de Nazaré? Este, reiteradas vezes conteve os ímpetos bélicos dos seus seguidores, e numa atitude de máximo altruísmo pacífico entrega sua própria vida “como ovelha muda diante dos seus tosquiadores”.
Os que seguiram o exemplo de Cristo receberam a alcunha de “mártires”?—?que, a prin­cípio, significava simplesmente “testemunha”, mas que logo passou a ser sinônimo daquele ou daquela que morre por sua fé. A maioria entregando a sua vida sem oferecer resistência, orando por seus inimigos, perdoando-lhes a ignorância.
Exemplo mais recente encontramos na linda história do mártir dos direitos civis estadunidenses, Rev. Martin Luther King Jr. Sua prática de resistência não-violenta, mas enfática e persuasiva, reverteu, em meados do século 20, os rumos da segregação racial no país, e inspirou o mesmo sentimento em todo o mundo.
Mas a resistência não-violenta não é exclusivamente cristã (nem mesmo deve ter sido por ele inventada). O mais belo exem­plo disso foi dado por Mahatma Gandhi. Ambos, Luther King Jr. e Gandhi pagaram com sua própria vida por sua opção de fé e civilidade. Mas o fruto de sua prática não pode ser ignorado nem mesmo pelos mais céticos, nem desconsiderado pelos mais obstinados e contraditórios defensores do uso da força para fins pacíficos.
Religião/fé, violência e mídia
O proibido, a fealdade, a monstruosidade, o fracasso, a morte, a loucura, a ausência, etc, misteriosamente exercem tanto fascínio sobre as pessoas quanto o jogo e o sexo.
Na mídia, a violência torna-se igualmente entretenimento. Esta ampliou consideravelmente a oferta das desgraças, das catástrofes, das tragédias, dos perigos, das ameaças, para alimentar a fome de “sangue”, para satisfazer o prazer do medo, para realizar as fantasias mórbidas e todas as for­mas de perversões, enfim, para alimentar o inferno interior que cada um tem guardado nas regiões mais sombrias de suas personalidades. Pois, como afirmou certa vez o pesquisador e crítico da mídia Joan Fer­res, “se o lixo seduz é porque remete inconscientemente o espectador às dimensões mais obscuras de si mesmo […] porque atua como espelho[!] inconsciente das zonas mais turvas do próprio psiquismo”.
A criação de mecanismos vitimários, que não é exclusivo do espetáculo, lhe vem muito bem a calhar, como o faz com a religião. Por esses meca­nis­mos, os alvos, ou objetos, da violência são apresentados como sendo a razão dos males da sociedade. Assim respon­sabilizados, é possível concordar com a sua destruição. Ocorre, então, a transformação de uma pessoa, grupo, ou figura, em um monstro que precisa ser exterminado. Nesse ponto, eleito o bode expiatório, as pessoas podem saciar sua fome/sede de sangue sem se sentirem culpadas por isso. Não se faz necessária justificativa melhor para o ataque aos inimigos da fé.
Para a indústria espetacular, a grande constatação é a de que “a crueldade vende”. O produto disso, como constatam os estudiosos da mídia, é que as desgraças humanas se converteram numa das principais moedas de troca no mercado televisivo, no qual uma das principais transações consiste na comercialização da dor. Nas metonímias espetaculares, com que facilidade as personagens espetaculares desferem golpes, socos e pontapés, disparam tiros, destroem carros, explodem casas, torturam e são torturados e, no final, saem realizados e satisfeitos ficando assim justificado o uso da violência.
Como o que é bom para a mídia, parece ser bom para certo segmento religioso, pelo menos para a parte mais ambiciosa deste, vê-se o mesmo tipo de incremento trágico-violento no discurso e na prática religiosa contemporânea.
Conclusão
Quando gente de igreja se queixa da violência, principalmente quando se vêem vítimas da violência urbana, não se dão conta de que nós mesmos, historicamente, somos “fiéis” e incansáveis promotores desse espírito de violência. Basta, para isso, ler criticamente a nossa literatura religiosa, ou atentar para as letras dos nossos hinos beligerantes, ou os sermões agressivos dos líderes religiosos.
É esse caldo cultural que banha a nossa fé. É esse substrato cultural que perpetua uma fé de força e de violência. Tendo consciência disso, não podemos em nome da fé, comba­ter a violência, posto que combater, por si só, já seria um ato de violência. Há que se buscar outras formas de resistência.
Os exemplos de resistência pacífica, de prática da não-violência, e de uma conduta pelo Espírito, estão aí a nos cercar como nuvem de testemunhas/mártires. Seria um verda­deiro milagre a mídia romper com seu compromisso com o senso comum, sedento de violência, e aderir ao bom senso da não-violência, ansioso por paz.
Abril/2009
Luiz Carlos Ramos (Doutor em Ciência da Religião, Prof. na Faculdade de Teologia da Igreja Metodista e na Univ. Metodista de S. Paulo)
Fonte – http://www.koinonia.org.br/tpdigital/detalhes.asp?

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OS CICLOS DO ECUMENISMO NO PARÁ: UMA TRAJETÓRIA DE BELEZA E INCERTEZA

Por Fernando Ponçadilha

Filósofo e Reverendo da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil

Foto de http://daa.ieab.org.br/

A primeira quadra do movimento ecumênico remonta os anos setenta e oitenta. No rastro dos acontecimentos desenvolveu-se uma atitude comum entre alguns cristãos cheios de sonhos e esperanças.

Tudo começou por meio de iniciativas bem singelas. Entre elas, a instituição do bacharelado em TEOLOGIA, oferecido na UFPA pelo reconhecido empenho também do pró-reitor e depois vice-reitor Ápio Campos, com o endosso da arquidiocese de Belém que não possuía na época um centro de formação adequado na capital.

Tal fato é inédito porque pela primeira vez é oferecido vestibular público para um curso eminentemente confessional, inclusive para egressos da vida religiosa no contato cotidiano direto com os sujeitos da academia secular.

Não levou tanto tempo para que esse espaço público e laico, portanto, fora do controle como deveria da religião e processador de saberes, debates e da opinião refletida, despertasse a desconfiança e a suspeita dos poderes da época, sendo interditado pela governança e desautorizado pela religião, e/ou desabilitado por ambas.

Acontece que a experiência do curso de TEOLOGIA na Universidade Federal do Pará produzira uma geração de formados no perfil pastoral que aquele tempo precisava: PREPARADA, SOLIDÁRIA e INOVADORA. É claro que não era a maioria. Mas esses irmãos procediam em sua maioria da Igreja Católica – embora já se percebesse elementos egressos de outras procedências, como no caso singular da jovem pastora de antanho, Marga Rothe, da Igreja Luterana.

Faz parte desse sinal embrionário do ecumenismo nascente o ocorrido na passagem da década de setenta para a década de oitenta, quando um acontecimento inusitado marcou a história do campus universitário definitivamente. Ou seja, no primeiro semestre de 1980, o acadêmico César Moraes Leite é assassinado dentro de sala de aula no pavilhão B do setorial básico.

Uma bala de revólver ou pistola veio da arma de um policial federal que assistia aula na mesma sala da vítima. Tudo levou a crer tratar-se de fatalidade, até por conta da perícia da época ter constatado que a arma caíra e detonara. Entretanto, fazia-se a pergunta nos quatro cantos do campus: Por que armado em sala de aula????

O episódio foi o bastante para desencadear um protesto nos maiores decibéis possíveis contra o regime militar e a reitoria da UFPA. Passeatas, concentrações, atos públicos, reuniões no vadião, assembléias, caravanas de estudantes de sala em sala, tentativa de invasão da reitoria e a culminância de tudo isso num CULTO ECUMÊNICO no ginásio de esportes da universidade.

Talvez tenha sido essa a primeira iniciativa propriamente ecumênica que se tem registrado no memorial do movimento, porque lá se reuniram dirigentes da Igreja católica (Pe. Savino Mombelli, assessor da Pastoral Universitária e professor do curso de teologia), Marga Rothe da Igreja Luterana, Rui Guilherme da ABU (ligado à Igreja Batista) e outros.O certo é que pessoas sensíveis com o que aconteceu ligadas à ABU – Aliança Bíblica Universitária – por conta da participação no evento – foram expulsas posteriormente das denominações que faziam parte.

Este episódio ainda estava recente quando na luta pela terra são presos posseiros e padres na região do Araguaia acusados de preparar uma emboscada em 1981. A Ditadura queria emparedar as lideranças camponesas e deflagrou essa operação através do GETAT e da Polícia Federal por meio de um processo-farsa visando desmoralizar os sindicalistas e ganhar a afeição da Igreja Católica para desautorizar a Pastoral da Terra. O tiro saiu pela culatra. Isso uniu o movimento contra a ditadura e mobilizou a opinião pública.

Vigílias nas escadarias do IPASEP em frente ao prédio da PF na Manoel Barata eram fartas e ininterruptas, revezavam-se as visitas na PF e depois no quartel da Aeronáutica. Um comandante disse para o Bispo de Cametá: “O senhor vais visitar comunistas? – Ele calmamente disse. “eles estão presos por causa da verdade”. E o que é a verdade pro senhor? – Dom Chaves respondeu: “Um dia Pilatos fez essa pergunta pra Jesus e não obteve resposta certamente porque não tinha merecimento”. Isso foi dito em depoimento dentro do templo lotado da igreja do Perpétuo Socorro, em cerimônia organizada pelo MLPA – Movimento de Libertação dos Presos do Araguaia – a segunda experiência comum de cristãos reunidos por uma causa.

Nos diversos ativos que se seguiram até a libertação dos presos do Araguaia era já percebida a contribuição de alguns irmãos evangélicos, sobretudo luteranos e depois os metodistas, estes em coro bonito de irmãs do coral, ofereceram um louvor aos presos em frente à Igreja das Mercês no dia em que a ditadura cercou a Igreja da Trindade com mais de 500 pessoas sitiadas, com parte do povo fugindo para o largo das mercês.

O primeiro ciclo dessa honrosa história encerra sua maturação com a criação da UNIPOP dentro da Igreja Anglicana no final da década de oitenta e início da de noventa. Afinal, algumas condições objetivas já estavam postas, a redemocratização já estava acontecendo, já existia um quadro de lideranças preparadas, mas essa década é cheia de tribulações. Lideranças camponesas como Gringo, Benezinho, Quintino (que teve o corpo recolhido, funeral e ato religioso encaminhado pelo movimento ecumênico),Paulo Fonteles, João Batista, Gabriel Pimenta e outros, tombam pelas balas da intolerância e do desmando.

A década de noventa começa com a organização da caminhada contra a pena de morte conduzida pelo pastor presbiteriano Paulo Roberto da IPU ao longo da Almirante Barroso, reunindo um bom público a partir dos estudantes das escolas circundantes, e com as  reuniões ecumênicas de estudo da bíblia toda segunda feira em comunidades  diferentes.Teremos também nesse tempo a preparação para a ECO-92, para a 1ª Jornada Ecumênica em Mendes-RJ, em 1994, e a triunfal criação do CAIC – Conselho Amazônico de Igrejas Cristãs, em 16 de novembro de 1996, na quadra da Escola Kennedy, sendo testemunhas aproximadamente 400 pessoas procedentes de diversas igrejas, até mesmo as que não acompanham o movimento, em cerimônia dirigida pelo arcebispo Vicente Zico, o pastor luterano Dick Osselman, o reverendo anglicano Francisco de Assis, o representante da IPU, e o representante da Igreja Metodista. Uma cerimônia concorrida que contou com a presença até do Rabino da Sinagoga central. Tornaram-se incessantes as oficinas, assessorias, cultos ecumênicos e formação permanente na perspectiva ecumênica depois da criação do CAIC, incluindo a consolidação do curso ecumênico de TEOLOGIA, com a criação da ACER no início da 1ª década do século XXI.

Hoje, percebe-se que a caminhada ecumênica foi construída em cima de propósitos bem determinados no tempo e no espaço. Relativo a isso é bom lembrar que as respostas foram surgindo de acordo com as demandas que os contextos apresentavam e as pessoas oferecendo contribuições sempre pela causa comum. Aquela relação de pertença ao coletivo ecumênico era por questões bem evangélicas: solidarismo, justiça, partilha, espiritualidade, estudo da palavra e outros. Aflorava mais a cooperação do que as contradições. Isso demonstra que o ecumenismo não é uma nova estrutura, mas uma atitude. E uma atitude de tolerância dinâmica, por isso é movimento, é instituinte, jamais pode pretender ser instituição. Se tal acontecer é a negação do ecumenismo. Essa atitude tem um perfil, mas não pode ter hegemonias e nem prevalências. É uma verdade carregada em potes de barro, portanto, frágil, que a qualquer momento pode sofrer ameaça.

O ecumenismo não só aqui, onde talvez se organizou a mais expressiva experiência, mas em diversos lugares, passa por momentos difíceis de incertezas quanto ao caráter e ao rumo, porque tudo o que se fez em comum durante trinta anos foi para atender apelos concretos do seu tempo e hoje o tempo é outro. Necessitamos de uma nova hermenêutica bíblico-evangélica para entender os desafios desse tempo e sair para uma atitude concreta de diálogo. Esse tempo é um tempo da imprecisão, do sentimento, da emoção, da intuição, das não prevalências e dos não modelos.

Quiçá possa o Espírito de Deus nos guiar pelos caminhos da humildade e da escuta para o novo tempo que se avizinha faceiro dentro da mais expressiva diversidade nesse universo de transformações que o mundo religioso e social está passando, encontrando recepção adequada em nosso meio para que almas sensíveis e sábias saibam dialogar com esse novo paradigma que está surgindo do diálogo temporal e espiritual entre os modelos niceno-constantinoplano, reformado e renovado do cristianismo, que parece ser o novo horizonte a ser seguido pela maioria das igrejas cristãs. É nesse contraditório que o movimento ecumênico prosseguirá tendo um grande papel catalisador.

Fonte:www.redecaic.blogspot.com

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PORQUE UMA IGREJA DE BRUXARIA E WICCA NO BRASIL?

O cenário da religiosidade pagã no Brasil inaugura uma nova página já em 2010: o surgimento de uma Igreja de Bruxaria e de Wicca- IBWB, com projeto concebido há muito e gestado desde 20 de julho deste ano durante o décimo segundo Bruxos Brasileiros em Brasília tendo como fundadores os elders: Mavesper Cy Ceridwen, Naelan Wyvern, Wagner Périco, Michaella Engels e Denise de Santis.

Em outubro na Mystic Fair, realizada em São Paulo, a IBWB foi reapresentada pelo Conselho de Elders às doze mil pessoas presentes no evento.

Poderíamos dizer: isso é possível para uma religião que tem como seu verdadeiro templo a natureza e que não se estrutura por relações hierárquicas, com autoridades religiosa, etc? Como aglutinar diferentes tradições numa só Igreja? Que critérios serão basilares para a inserção de seus adeptos diante de tanta diversidade? Essas e tantas outras questões irão certamente circular em todas as rodas e redes sociais pagãs. O estranhamento é perfeitamente natural diante dos princípios da bruxaria e considerando que a religião tem a tradição oral como tessitura.

É compreensível, num primeiro momento, o sentimento de estranhamento ou rejeição a essa idéia, porém o que percebemos ao visitar algumas comunidades pagãs da rede WWW com a instituição da Igreja, é que ao se referir sobre religião e igreja nos depararmos com um pensamento cuja “roupagem” está fechada em representações das religiões secularmente dominantes.

Compreende-se que Igreja é um termo que vem do latim ecclesia – comunidade, assembléia. Sobre essa questão Mavesper Cy Ceridwen faz a seguinte reflexão: “muito antes de ser usada por cristãos já era usada no paganismo. Utilizamos o termo não para designar um órgão de comando de uma hierarquia rígida, porque inexiste isso na bruxaria. A designação é apenas o que a origem etimológica diz: uma comunidade para todos”.

A Bruxaria e a Wicca está cada vez mais se fortalecendo e mantendo acesa as suas tradições seja solitariamente, nos Círculos, Covens, Groves. Desde que a ultima lei da inquisição caiu na década de 50, sessenta anos se passaram e o culto aos ancestrais aliado à natureza tem sido a razão de práticas pagãs e de diversas formas de organizações e de sua existência.

É sobre a necessidade que impõe hoje a instituição de uma Igreja, mediante às exigências da legalidade imposta pelo Estado, que este texto se destina.

A sociedade brasileira, assim como outras sociedades do mundo, é positivada por lei, portanto, não podemos passar adiante de uma realidade concreta que é a existência desde 2003 no direito brasileiro, da figura da Organização Religiosa como pessoa jurídica, registrada em Cartório de Registro Civil . Diante deste cenário a Igreja católica teve vários direitos tradicionais contestados nos tribunais gerando diversas pressões o que levou o Brasil a celebrar um Acordo Internacional com o Estado do Vaticano. Em decorrência do Acordo privilegiar a Igreja Católica, evangélicos pressionaram o Congresso Nacional que deu por existência a um Projeto de Lei contemplando todas as igrejas. Projeto este aprovado na Câmara dos Deputados e encaminhado para aprovação ao Senado ainda este ano.

Diante da nova Lei, as organizações religiosas que não estiverem reconhecidas pelo Estado brasileiro e com personalidade civil não estarão com seus direitos religiosos garantidos. Esse fato acaba por impor uma organização legal já que vivemos em uma sociedade que não respeita os direitos fundamentais da pessoa humana.

É nesse momento que nasce a Igreja de Bruxaria e Wicca do Brasil que resguarda os princípios da Religião, ao mesmo tempo em que coloca em condições de igualdade jurídica à garantia da prática religiosa em toda a sua diversidade.

A proposta resignifica o termo Igreja em sua origem, pensada diante do que os pagãos praticavam em seus clãs, comunidades, nas assembléias pela convivência no sagrado. Segundo o blog Parahyba Pagã a nova organização vem como uma espécie de “federação de grupos e covens”, ou mesmo “associação religiosa”.

Num primeiro momento as pessoas tendem a se prender no sentido desgastado de “Igreja” que chegam a travar mil debates sobre essa terminologia, totalmente compreensível. Mas, é preciso considerar um momento novo que coloca qualquer entidade religiosa não registrada à margem da legalidade e, portanto, longe de direitos conquistados histórica e culturalmente.

Cada dia mais bruxos e wiccanianos de todo o mundo têm se alido à luta em favor da liberdade religiosa, contra a intolerância e fundamentalismo religioso. A nova Igreja deverá ser um espaço de congregar direitos antigos e direitos novos e não substitui os espaços construídos pelos Covens, Grupos, Groves, etc.

A IBWB não se prende a uma tradição ou visão, e seus elders fundadores/orientadores representam a diversidade de práticas pessoais e mágicas. A forma de ingresso de sacerdotes e sacerdotisas, assim como, membros aprendizes e praticantes que não desejam exercer o sacerdócio estão indicados na carta aberta da IBWB, disponível em http://www.ibwb.com.br/ .

Para se construir um novo espaço religioso e de direitos como queremos, só mesmo estando juntos nessa nova página da bruxaria no Brasil.

Aondê Airequecê – Dedicada da Tradição Diânica do Brasil e Coordenadora da Abrawicca/Belém e membro da Coordenação Colegiada do Comitê Inter-religioso do Pará.

Nalini Alpa – Dedicada da Tradição Diânica do Brasil e Tesoureira da Abrawicca/São Paulo – www.abrawicca.com.br

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Religião: chave para dialogar com o povo – Frei Betto

Quarta-feira, 22 de setembro de 2010 – 16h01min

por Joana Moncau

Uma das principais referências da teologia da libertação no Brasil e com larga trajetória de lutador social ocupa lugar privilegiado para versar sobre o tema. Não por acaso, seu livro “Fidel e a Religião” (1986) teve importante papel, segundo próprio bispo cubano, para “tirar o medo dos cristãos e o preconceito dos comunistas”. Indubitavelmente, a reconciliação entre a Igreja Católica e o governo revolucionário cubano deve algo a Frei Betto.

No Brasil, militante dominicano desde sua juventude na época da ditadura (1964-1985), contribuiu para a realização de acontecimentos históricos. Entre eles a fundação do Partido dos Trabalhadores, o PT, governo do qual chegou a formar parte em seu início com a eleição de Lula a presidência da república, em 2002.

Política, religião e comunicação. Na entrevista que segue Frei Betto, recorre a esses três pilares para nos deixar sua impressão sobre o atual momento político por que passa a América Latina.

– Como frei dominicano e militante junto às bases populares na época da ditadura brasileira, como avalia a importância da Igreja Católica para as lutas sociais na América Latina, especialmente no combate às ditaduras que assolaram a região durante a década de 60? De lá para cá, mudou o perfil da atuação social da Igreja?

– Nos anos 1960 e 1980 a Igreja Católica, renovada pelo Concílio Vaticano II e pela conferência episcopal latino-americana em Medellín (1968), teve papel preponderante nas lutas sociais na América Latina. Através das Comunidades Eclesiais de Base e do advento da Teologia da Libertação, decorrentes da “opção pelos pobres”, muitos militantes foram formados pela Igreja segundo o método Paulo Freire. Em países sob ditadura, como Brasil e Nicarágua, essa formação resultou em opção revolucionária. Diria que, de certo modo, as eleições recentes de Lula, Correa, Evo, Funes e outros têm a ver com esse processo pastoral. Com o pontificado de João Paulo II e a queda do Muro de Berlim, iniciou-se a “vaticanização” da Igreja latino-americana. A Teologia da Libertação foi censurada; os bispos progressistas afastados; padres conservadores nomeados bispos etc. Hoje a Igreja Católica, embora abrigando grupos progressistas comprometidos com as causas populares, reflui na opção pelos pobres e busca situar-se numa suposta neutralidade frente aos conflitos sociais.

Qual a ponte entre o cristianismo e a luta armada?

– Hoje, na América Latina, a luta armada só interessa a dois setores: fabricantes de armas e extrema direita. Governos como Lula, Chavez, Mujica etc demonstram ser possível realizar reformas estruturais pelas vias pacífica e democrática. Porém, a questão da relação cristianismo e luta armada está, em tese, equacionada desde o século XIII por meu confrade Tomás de Aquino. Em caso de opressão prolongada e sem outro recurso para se evitar um mal maior fora da resistência armada, então esta é justa e legítima. Nos anos 1960 e 80 isso se aplicava a países da América Latina sob ditaduras, o que explica os testemunhos de Frei Tito de Alencar Lima, Camilo Torres e tantos outros cristãos que participaram da luta armada. Esse mesmo princípio tomista levou João Paulo II a comemorar os 50 anos da vitória da resistência europeia contra o nazifascismo. E, como sabemos, a resistência atuou com armas.

– As lutas sociais latino-americanas incorporaram símbolos e princípios do catolicismo (como a Nossa Senhora de Guadalupe no México, as místicas do MST, etc.). É possível falar em alguma luta que seja genuinamente popular na América latina e que desconsidere a força do catolicismo e da religião?

– Que eu saiba não há nenhuma força política progressista na América Latina que apregoe o ateísmo e seja antirreligiosa. Desde que Fidel acentuou, na entrevista que lhe fiz em 1985 (livro “Fidel e a Religião”) a importância da religião como fator de libertação, o preconceito praticamente terminou. Jamais haverá participação popular nos processos políticos latino-americanos sem incorporar a religiosidade do povo. Aqui a porta da razão é o coração e a chave do coração é a religião.

– Considerando essas questões, como interpretar o caso da revolução cubana? Como avalia a situação por que passa o país hoje?

– A Revolução cubana incorporou os valores religiosos do povo, tanto que teve líderes assumidamente cristãos, como Frank Pais e José Antonio Echeverría, bem como capelão, o padre Guillermo Sardiñas, que após a vitória mereceu o título de Comandante da Revolução. Hoje Cuba passa por um período de excelentes relações entre Igreja e Estado, a ponto deste permitir que a Igreja Católica faça a mediação que possibilita a libertação de presos de consciência.

– Que papel os movimentos sociais desempenham hoje na política latinoamericana? No Brasil, pode-se dizer que foram a maior herança de resistência e organização da época da ditadura?

– Sem os movimentos sociais a América Latina não estaria vivendo essa primavera democrática representada por Lula, Chávez, Funes, Mujica, Evo, Correa, Lugo etc. No entanto, ocorre hoje um refluxo dos movimentos sociais, muitas vezes porque suas lideranças foram cooptadas para aqueles governos. A queda do Muro de Berlim, a influência do neoliberalismo e das novas tecnologias, o advento da pós-modernidade, são alguns dos fatores que explicam a desmobilização dos movimentos sociais, embora alguns permaneçam ativos, como o movimento indígena e, no caso do Brasil, o MST. O movimento indígena, graças à eleição de Evo Morales, o primeiro indígena presidente, ganha autoestima e, devido ao tema ambiental estar em pauta, também relevância, sobretudo na proposta do BEM VIVER, nos ensinando que devemos aprender a considerar o necessário como suficiente.

– Quanto aos governos com origem na esquerda partidária e nos movimentos sociais que vêm se consolidando no cenário latinoamericano, é possível classificá-los como governos de esquerda?

– Não, são governos progressistas e, alguns, como é o caso da Venezuela, até explicitam o socialismo como projeto político. Mas também estão longe de serem governos de direita ou conservadores. Dentro de possibilidades reais, e não ideais, atuam em favor dos mais pobres e, sobretudo, desarticulam o poder político das oligarquias tradicionais, embora elas prossigam com muito poder econômico.

– Tendo acompanhado o partido e colaborado com o PT desde sua fundação, como o senhor avalia os 8 anos de governo Lula em relação à proposta inicial do partido? Como o senhor define sua relação atualmente com o PT e com Lula?

– Lula fez o melhor governo de toda a história republicana do Brasil. Permitiu que 19 milhões de pessoas saíssem da miséria. Estabilizou a economia. Mas não fez nenhum reforma estrutural e nem qualificou a saúde e a educação. Escrevi dois livros de avaliação do governo Lula: A MOSCA AZUL e CALENDÁRIO DO PODER (editora Rocco). Apesar das limitações, penso que é importante dar continuidade do governo do PT.

– Como jornalista e escritor, qual o papel da comunicação para a transformação social? A comunicação ainda é o Quarto Poder? Como enfrentar esse poder?

– A comunicação não é mais o quarto poder, é o primeiro. Vide o papel do marketing eleitoral nas campanhas políticas. Ocorre que os grandes veículos de comunicação se encontram em mãos da elite conservadora. Um dos desafios a serem enfrentados pelos setores progressistas é o de encontrar alternativas à comunicação controlada pelos monopólios poderosos.

– Esteve preso por 4 anos. Como essa experiência interferiu na sua vontade de lutar contra a ditadura e as injustiças sociais?

– Ao contrário, foi a minha militância por justiça social e contra a ditadura que me levou à prisão. Esta apenas reforçou minha decisão de estar sempre ao lado dos oprimidos, ainda que aparentemente eles não tenham razão.

– O senhor já escreveu mais de 50 livros, em quantas línguas já foi traduzido? Qual dos seus livros recomenda para nossos leitores que queiram conhecer melhor o Frei Betto?

– Minhas obras já foram traduzidas em 32 idiomas e 23 países. Para o leitor latinoamericano sugiro obras em espanhol editadas em Cuba: Fidel y la religión; La obra del artista – una visión holística del Universo; Un hambre llamado Jesús (novela). E deve sair em breve La mosca azul.

(Publicado em Brasil de Fato, Edição 394 – de 16 a 22 de setembro 2010)

fONTE: http://redecaic.blogspot.com/2010/11/reverendo-anglicano-fernando-poncadilha.html

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Responses

  1. SOBRE O CULTO ECUMÊNICO NA UFPA, QUANDO DA MORTE DE CESAR MORAES LEITE
    http://sejarealistapecaoimpossivel.blogspot.com.br/2008_01_01_archive.html


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